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Ainda em cartaz, “Estamira”: A Psicanálise nas telas do Cinema
Ainda em cartaz, “Estamira”:
A Psicanálise nas telas do Cinema
Still in theaters, “Estamira”: Psychoanalysis in Cinema screens Thiago Robles Juhas
Niraldo de Oliveira Santos
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo discutir e articular as relações entre o cinema e a Psica-
nálise. Para isto, utilizou-se do documentário Estamira, de Marcos Prado, 2006. O fi lme retrata
a história de uma mulher que sofre de transtornos mentais e trabalha, há anos, no hoje extinto
aterro sanitário na cidade do Rio de Janeiro. O Cinema, como expressão de arte, se relaciona
com a Psicanálise de diversas formas, pois também trata da subjetividade dos participantes
na produção cinematográfi ca. O diretor, sem ter a intenção de qualquer expressão psicanalí-
tica, assume um lugar de objeto que escuta e deseja desvendar o saber da personagem, o que
se assemelha à função de um analista. Estamira transmite aos telespectadores sua narrativa
da verdade, seu discurso contundente que, na mesma enunciação impacta, confunde e toca.
Na psicose, como é caso de Estamira, os delírios da personagem tentam responder a eventos
traumáticos inassimiláveis, são respostas a circunstâncias compostas de grande sofrimento; a
personagem elucida o mecanismo de produção delirante ao mostrar, em sua história de vida,
que a única resposta possível encontrada às violências que vivenciou, foi o delírio.
Palavras-chave: Psicanálise, Cinema, Psicose, Delírio.
Apresentações
“A minha missão, além de eu ser Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade. Seja mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara, ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem, os inocentes… Não tem mais inocente, não tem. Tem esperto ao contrário, esperto ao contrário tem, O que pensar destas palavras que, ao mes- cerca de seis anos no aterro sanitário de Jar- mo tempo, dizem algo que não tem sentido, dim Gramacho, no Rio de Janeiro. Em meio mas aparentam ter algum tipo de signifi ca- ao ambiente fétido e imundo que o rodeava, do? Quem tem ouvidos, que ouça! No ano de 2000, Marcos Prado, diretor e fotógrafo, rea- postura peculiares, contemplando a paisa- lizava um trabalho fotográfi co que já durava gem do lixão. Pede a ela autorização para Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157–164 | Dezembro/2011
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fotografá-la. Esta consente, com a condição tos e as mudanças do discurso da persona- de que, depois, ele sentasse para conversar. Na prosa com Marcos, a excêntrica senho- efeitos (colaterais) dos medicamentos, que ra conta que mora em um castelo, enfeitado toma diariamente. Os fi lhos de Estamira com lixo e fala sobre o mundo, as pessoas, e também participam do fi lme, contam sobre coisas que, às vezes, parecem não fazer muito seu passado trágico e mostram como é vi- ver ao lado de alguém com esquizofrenia. Já a personagem conta pouco de sua história e la senhora, discurso bem diferente e, por ve- fala mais de sua “verdade” e de sua “missão”. zes, confuso. Eles se tornam amigos e, certo O fi lme sensibiliza quem o assiste, pois dia, ela lhe pergunta qual seria sua missão. as falas e os signifi cantes contundentes dos Antes que ele pudesse responder, ela diz que personagens chocam, sua narrativa parece a missão dele era a de revelar a verdade dela. possuir diversos signifi cados que, às vezes, Desta forma, Marcos Prado decide fazer um escapam do espectador. É preciso assisti-lo e fi lme sobre sua vida e nomeia a produção ouvi-lo, mais de uma vez, porque, só assim, com o nome da senhora: Estamira. O presen- é possível supor uma compreensão acerca da te trabalho tem como objetivo tecer algumas seqüência discursiva da personagem quando considerações sobre Estamira, o cinema e a esta fala de coisas reais, concretas, sofridas, de traumas que podem ser de difícil com-preensão para quem nunca vivenciou tais A personagem e a sua história
sensações em sua vida. O diretor apresenta, Estamira, fi lme de Marcos Prado (2006), con- através do gênero documentário, o mundo ta a história de Estamira, uma mulher que da personagem como ele realmente é. Há sofre de transtornos mentais, vive e trabalha, há mais de 20 anos, em um aterro sanitário. lixo, podridão, miséria, coisas concretas, que Uma pessoa de olhar e expressão de quem já rodeiam o mundo de Estamira: tentativas de sofreu muito ao longo da vida, uma mulher de vida árdua, que fala sozinha, ouve vozes e, quando se refere a Deus, o faz com catarse, Aproximações possíveis
proferindo inúmeros palavrões. Trata-se de entre cinema e psicanálise
uma fi gura muito carismática e respeitada no extinto lixão da capital carioca. Sua história é marcada por violência e rupturas, dentre na (a partir da visão do diretor), que conta elas: os estupros, a prostituição, as traições com a subjetividade de quem o produz com vivenciadas em seus dois casamentos, o dis- um objetivo e transmissão de valores. É arte tanciamento de sua fi lha mais nova, a depen- como expressão da verdade; a vida como ela dência alcoólica e o fato de ter sido moradora é, sendo que, por vezes, há intenções políti- de rua. Ao assistir o documentário, pode-se co-partidárias – o desejo do diretor? De cer- acompanhar o seu tratamento psiquiátrico ta forma, o cinema, como fi cção ou irreal, na rede pública: os médicos a diagnosticam representa a realidade transformada em arte, como portadora de quadro psicótico de evo- que trabalha, quase sempre, retratando as lução crônica, alucinações auditivas, idéias produções humanas, fato este que chama a de infl uência e discurso mítico. As fi lmagens atenção de quem estuda e se utiliza da psi- duraram quatro anos, sendo que o início da canálise. Segundo Penafria (1999, p.17) “um produção coincide com o começo do trata- documentário pauta-se por uma estrutura mento psiquiátrico; assim, o fi lme retrata e dramática e narrativa, que caracteriza o cine- ma narrativo. A estrutura dramática é cons- Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157–164 | Dezembro/2011
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tituída por personagens, espaço da acção, problematizam a realidade. As produções cinematográfi cas sempre comunicam algo, nascimento em épocas semelhantes, no fi - clara, muito ou pouco política e que pos- nal do século XIX, quando o conhecimento sui diferentes gêneros, como por exemplo, científi co e as novas formas de tecnologia a comédia, o drama, o terror, o suspense e o romântico. A prática e costume de ir nálise vê e observa um mundo de represen- tação e memória, toma o homem para além tra pessoa, já está incorporada em muitas do corpo e, sem excluí-lo, procura desven- culturas como meio de se fazer laço social, dar os anseios e vicissitude da alma huma- na. Se a psicanálise como ciência e técnica pais separados que levam seus fi lhos ou ca- se aprimorava, o cinema cada ano se utiliza sais que se enamoram nas salas de cinema. de novas tecnologias ópticas para ampliar o olhar, para operar no universo do fantásti- funções distintas: a comédia para quando se co e construir expressões de realidades de está triste ou para desfrutar o momento com amigos; o drama e o suspense para fazer re- fl etir e questionar-se; o romance para cativar fragmenta o racional e a fantasia e, de ma- um outro de quem se quer aproximar ou, até neira similar à psicanálise, investiga, cons- mesmo para, sozinho, elaborar os desenla- trói e desconstrói a racionalidade, aprende ces das relações. Existem, também, os gêne- e formaliza um olhar científi co ao que não ros mais explícitos como é o caso dos fi lmes opera logicamente. Ambos, os fi lmes e a te- adultos que tem muitos desdobramentos psí- oria psicanalítica acerca da construção da quicos como o fetiche e a compulsão sexual.
realidade, são frutos da união da ciência, razão e irracionalidade, e sem dúvida, po- homem o que nele há de mais importante e de-se afi rmar que o cinema e a psicanálise problemático: traz à tona seu particular, seu contribuíram para a construção da subjeti- “buraco”, aquilo que o faz sujeito. A psicaná- vidade e seu acesso a ela, ao longo de todo o lise tem sua matriz implicada com a arte, na tragédia de Édipo, na dúvida de “ser ou não ser” de Hamlet. Mesmo que Freud não tenha escrito nada sobre o cinema, a arte foi tra- sam, por meio de imagens e sons variados, balhada e teve importância ao longo de sua as emoções humanas, “O homem busca no obra. Artistas como Leonardo e Michelange- lo contribuíram com a obra psicanalítica. As- para viver uma experiência imaginária com sim como a análise dos textos de Schereber, o todas as emoções proibidas e perigosas; sai legado de Freud sobre a psicose e a obra Gra- delas como se despertasse de um sonho” diva de Jansen são contribuições literárias e Os fi lmes podem ser a expressão de uma artísticas que formalizam a psicanálise como dimensão onde não há falhas, tudo pode ser ciência humana. Segundo Ide (2008), as ima- gens em movimento, os sons, as impressões de temas complexos e problemáticos, onde obtidas a partir da experiência de assistir um sempre é possível um “então viveram feli- fi lme, todos estes elementos absorvidos pelo aparelho psíquico, são, sempre, recobertos são do ideal e fantástico, do integrado e por sentimentos e afetos que, às vezes, são alienante, há, também no cinema, imagens recalcados, simbolizados, sublimados ou so- que propõem questões aos espectadores e Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157–164 | Dezembro/2011
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O que é tão estranho em Estamira?
da negação, o conceito de estranho em Freud Estamira é um documentário didático ao indica o recalque, demonstra situações em mostrar os alcances da relação entre cinema que o que deveria permanecer obscuro é tra- e psicanálise. Talvez um dos aspectos mais zido à luz, irrompe na consciência, ou seja, o importantes do fi lme seja demonstrar a fun- que se apresenta como estranho está vincula- ção e a importância da escuta, pois ouvir o do, de alguma forma, com o que é familiar. O outro nem sempre é fácil; escutar do outro estranho provem de que algo recalcado pode sobre o que nos é diferente ou muito seme- retornar, não importando se o elemento em lhante, escutar sobre a dor ou morte é, mui- questão já era originalmente assustador ou tas vezes, insuportável. Entretanto, não é isso pertencente a qualquer outro tipo de afeto, mesmo que faz a psicanálise? Escutar o sujei- to? Até que ponto se escuta os outros fora de O fi lme, desde o seu início, causa estra- um dispositivo analítico, suas fantasias, seus nhamento e, quem assiste se pergunta: que delírios ou pergunta-se: o que se escuta de realidade é essa? As imagens aparecem como do fora da realidade. As primeiras impressões pode discordar do que a protagonista fala; são de um lugar sem forma, sem matéria, em outros, há um estranhamento profundo, que tem um aspecto sombrio. Os primeiros mas, estranho mesmo, é que o conteúdo de minutos de fi lme são formados por palavras sua narrativa, em alguns momentos, também que, parecem não ter sentido, paisagens sem nos é familiar. O telespectador reconhece, tomado de angústia, o abandono da perso- séria. O retorno do recalcado dos telespecta- nagem por parte dos pais, dos cônjuges, da dores se atualiza nas cenas do lixo, do dejeto, sociedade e de deus. Quem assiste Estamira, do que pode ser descartado, na solidão, na certamente, se recorda de que existem pes- fome, atributos que retornam á consciência, soas que vivem no lixo, no refugo, que são mas, melhor seria se de lá não tivessem saído. tratados como abutres, que vivem à borda, O que fi ca sob recalque, primordialmente, é sujeitos com famílias sustentadas pelo que se o fato de que todo o lixo mostrado é familiar. obtêm do lixo. Como não estranhar tal situ- É conhecido dos telespectadores e de todos ação. Como não se incomodar com as narra- os homens, de maneira geral, pois todos são produtores de lixões. Os restos amontoados Em seu artigo “O Estranho”, Freud (1919) mostrados por Marcos Prado, que estão em estado de putrefação, já estiveram em nossas aquilo que, um dia, já foi familiar, ou seja, ao mãos. Assim vemos os dejetos por nós pro- se deparar com alguma imagem ou sensação duzidos e descartados, queremos esquecê- qualquer, ocorre o retorno de uma percep- los, negamos sermos responsáveis pela for- ção que, em um algum momento anterior, mação de montanhas de lixo, que, inclusive, era conhecida, e, no estado atual, é percebida destroem o meio ambiente. Segundo Rinaldi como estranha. Através da sobreposição do (2008, p.63) “é o resto que retorna e que in- percebido da realidade externa e do vivido no mundo interno o elemento chave da situ-ação de estranheza, foi, outrora, esquecido ou Esta que “mira” o social
reprimido. O conceito freudiano diz respeito O discurso de Estamira problematiza o lixo à ideias que se associam ao retorno de uma como uma representação da própria condi- cena que foi reprimida, fato que provoca, in- ção do homem, do quanto o homem se ape- dubitavelmente, uma sensação de desamparo ga ao desnecessário, e como a sensação de e angústia. Acompanhando a mesma lógica prazer trazida por este nos torna escravos do Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157–164 | Dezembro/2011
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imediato, da máxima, “usou jogou fora”. O ouve. A personagem se utiliza da imaginação e busca a sua verdade. Ela se impõe com uma paro humano; não só o biológico ou familiar, força narrativa que traduz suas experiências mas, também, o social, o econômico e o po- lítico. Estamira, essa que olha, é uma idéia, criança, traída pelo marido na fase adulta e um estado de espírito no qual o ser huma- no pode ser mais autêntico. É uma resposta à negligência social. Sabe-se dessa realidade, pois ela é vista todos os dias, mas é esqueci- contidos em frases com palavras conhecidas da, é recalcada. Mas, no entanto, ela retorna. se misturando com neologismos. A narrativa se une com uma trilha sonora angustiante e série de elementos politicamente corretos, as imagens de um lixão: tudo impacta, tudo demonstra códigos sociais estabelecidos, de- é tão real. Estamira tem “verdades” a serem fl agra e denuncia alguns comportamentos reveladas ao mundo. A verdade por ela rela- tada, como afi rma uma de suas fi lhas, são pa- A denúncia alcança muitos níveis, tais lavras que abalam profundamente, mas, logo em seguida, se perdem quase por completo. perdício, o questionamento da educação do Sabe-se que a oferta cria a demanda: Esta- país conceituando os homens da atualidade mira demanda aos seus telespectadores sua como indivíduos assujeitados, uma vez que, narrativa da verdade, seu discurso poético e só reproduzem e não possuem autonomia. delirante, que na mesma enunciação ensina Da mesma forma, critica o tratamento psi- e confunde, e, como bem disse sua fi lha, ‘ba- quiátrico sem o cuidado de particularizar os lança’, faz com que pesemos nossas certezas e sujeitos, generalizando e homogeneizando nossas ‘verdades ao contrário’, como ela diz. o que deveria ser o mais particular, o sofri- De certo modo, a personagem se assemelha a todos nós, uma vez que, de acordo com Ven-tura (2008, p.144) “muitas vezes buscamos a O desamparo e a denuncia da “verdade”
nossa própria verdade e porque não dizer a O olhar de Estamira assusta. É possível ver em seus olhos que experimentou muito sofri-mento ao longo de sua vida. O documentário Delírio, a borda do real
revela sua história, que vai sendo desvenda- O diretor oferta a escuta, assume a missão da aos poucos. Demonstra seu cotidiano, a que lhe foi dada por Estamira. Por mais arro- subjetividade, o modo de estar no mundo da gante, verbalmente agressiva e desagradável personagem e os seus delírios. Seu discurso que a personagem possa se mostrar, Marcos é, muitas vezes, um trocadilho, um equívoco, Prado dá voz a seus delírios, sustenta uma bem como se utiliza de uma entidade, por ela ética de caráter psicanalítico, a ética da es- criada, o “trocadilo”, esta criação mítica, se- cuta. O fi lme aborda a psicose e a escuta do gundo Estamira, é responsável pelos equívo- seu dizer. O delírio é um dos pontos princi- cos que viveu e os mal-entendidos que exis- pais tratados no fi lme, a personagem elucida o conceito ao mostrar em sua história que a Às vezes, é difícil compreender a sonori- resposta encontrada para os abusos e as vio- dade das palavras da personagem; é curiosa a lências a que foi e é submetida, foi uma res- diferença que há entre assistir o fi lme com ou posta delirante, pois Estamira é convocada a sem legenda, pois sem esta, a compreensão responder onde não pode, e assim responde do que diz Estamira conta muito mais com com o delírio. Os delírios são respostas a cir- a interpretação e a subjetividade de quem cunstâncias de sua vida composta de grande Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157–164 | Dezembro/2011
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sofrimento e encontros com ‘tudo que é tão que também vivem na borda de um país e de um mundo que não quer saber, e prefere continuar vivendo adormecido em relação a real falta do objeto, ou seja, qualquer evento situação da exclusão dos portadores de trans- que apresente status traumático, faz com que tornos mentais. A partir do “Caso Estamira” algo se estruture no psiquismo. Na neurose torna-se possível, ainda, notar o estigma e o há o recalque e uma resposta ao trauma com preconceito que as pessoas acometidas por uma fantasia e com o simbólico. Na psicose, transtornos mentais, inclusive os transtor- como é o caso de Estamira, é o delírio que nos psicóticos, ainda sofrem da sociedade. tenta responder ao traumático inassimilável. Inclusive com os próprios fi lhos, que, por ve- zes, falam das difi culdades de se ter uma mãe monstra que ela foi uma mulher saudável até o período da vida em que os sucessivos encontros com a violência e as situações que A escuta e a transmissão:
não podiam ser elaboradas de forma neuró- tarefas distintas
tica, a levaram a não mais acreditar e sentir, como ela fazia até então. Anteriormente, Es- missão de conceitos psicanalíticos, é possível tamira era uma pessoa com valores religiosos analisar o tratamento da psicose que ele ope- que acreditava em um deus, protetor e bon- doso. Era, também, uma boa mãe, contida e Prado permite que fale e a deixa delirar, de modo a não barrar ou impor testes de rea- É importante ressaltar que o delírio não é lidade. Marcos Prado, sem ter a intenção de a psicose propriamente dita, e, sim, uma ten- qualquer expressão psicanalítica, assume um tativa de tratamento desta. É o restabeleci- lugar de objeto que escuta e deseja saber do mento das relações libidinais com os objetos saber da personagem, o que caracteriza de anteriormente abandonados (Leite, 2006). forma bem consistente a função de um ana- Trata-se de uma tentativa de recobrir um lista, que, tal como o fotógrafo, constrói um buraco e da falta de operações simbólicas: o fenômeno oferece contorno ao que não pode A escolha do diretor sobre o que foi mos- ser simbolizado. A esquizofrenia constitui trado no documentário considera importan- casos em que é difícil compreender a pessoa tes elementos da subjetividade de Estamira; analiticamente, pois há um total retraimento o diretor oferece a sua escuta à personagem da libido, o que difi culta o estabelecimento da que sofre e necessita dar voz ao seu mundo transferência; contudo, o possível tratamen- mental. A construção de Marcos Prado par- to da esquizofrenia também se dá na escuta tilha elementos em um trabalho conjunto: analítica em que o objetivo é da reconstrução É importante diferenciar que construção Segundo Sousa (2007), os delírios da per- não é o mesmo que interpretação. A cons- sonagem de Marcos Prado, se não conside- trução do documentário é direcionada para rados como uma história individual e parti- o arranjo dos elementos do discurso de Esta- cular, são entendidos apenas como loucura. mira, visando demonstrar a história e as con- Aos olhos dos outros, é reconhecida como dutas da personagem. Já a interpretação visa louca, não tem crédito, não se pode compre- um sentido – não há no fi lme uma interpre- ender, não consegue compartilhar opiniões tação direta –, mas fi ca a cargo de quem as- e crenças. Contudo, o diretor permitiu a fala siste interpretar Estamira: ela é louca, é sabia, de uma realidade facilmente encontrada por é doente, é lúcida, é somente uma vítima? O muitos, inclusive moradores de rua e pessoas Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157–164 | Dezembro/2011
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posição ativa do diretor, uma vez que ele sai gumas cenas com cores vivas e iluminação ao de uma posição exclusiva de escuta, para a de natural; em outras, aplicou o efeito de preto- amigo, companheiro e provedor econômico e-branco quase chegando à desintegração da de Estamira, papéis que não cabem a um imagem, formas cinematográfi cas que dão analista. Pensado como um “caso clínico” o maior destaque ao lixo e a miséria. Durante fi lme é didático, mostrando de forma ímpar anos seguidos visitou Estamira e seus fi lhos, o que é a psicose – já que nesta o inconscien- seus companheiros os catadores de lixo que, te está a céu aberto. O diretor, na montagem fi nal, encontrou elementos do discurso da lubre depósito de lixo da cidade do Rio de personagem ao pé da letra, incluiu as ações, demonstrando que estas são norteadas por Marcos permite que ela se faça ouvir e re- uma posição no discurso determinada por gistra sua revolta contra um deus estuprador Estamira. O relato se apresenta rico em de- e médicos copiadores de receitas. O diretor, talhes, cenas e conteúdos. O diretor jamais como o analista, busca o singular de quem deve ter imaginado que receberia uma mis- fi lma/ouve, por meio do caminho que o su- são, esta muito similar a dos analistas.
jeito percorre: não atrapalha a caminhada, segue a direção – no caso do fi lme – que Es- Considerações fi nais
tamira lhe aponta e transmite o caminho so- Estamira e o documentário convocam o ex- litário que ela percorreu em sua vida.
pectador a se deparar com seus próprios de- A partir da psicanálise, o analista propõe jetos. Miller (2010, p.1) discorre que os deje- ao paciente que não deixe nada de lado em tos são os elementos rejeitados, “o que cai, é sua fala. O paciente é levado a falar sobre to- o que tomba quando por outro lado algo se dos os assuntos possíveis, mesmo detalhes eleva”. O fi lme nos convoca a olharmos que que parecem desprezíveis: a regra fundamen- o resto, o que se joga fora, retorna. O fato é tal é a associação livre. Em contrapartida, no que, para a psicanálise, os dejetos do mental cinema há uma seletividade na inclusão de são as formações do inconsciente, matéria- cenas que se impõe desde o princípio; nem toda imagem é importante para o diretor e para a composição do fi lme. O cinema que- anos para preparar o documentário, soube bra a regra fundamental da psicanálise, pois respeitar o tempo e as limitações de Estami- toma algumas cenas como irrelevantes, sem ra. Segundo ele, de fato, recebeu uma missão, importância, ou absurdas. Tanto no processo a de revelar a sua história e realidade (sua vi- de análise, quanto no cinema, quando se in- são de mundo). A Estamira resta delirar, fa- terrompe uma sessão ou se sai da sala após o lar de sua missão e, assim, tentar imprimir término de um fi lme, os efeitos continuam a repercutir para alguns sujeitos e, por vezes, nós, resta-nos lidar com todo esse resto, que, levam dias para passar. Tal é o caso da angús- por mais esquecido e descartado, volta a nos tia ou do “estranho” que são despertados em questionar cotidianamente – na vida, na clí- Os elementos utilizados por Marcos Prato são similares à construção de um caso clí-nico em psicanálise. Não é igual a um caso clínico, pois, segundo Figueiredo (2004), diferente dos casos “psicanalíticos” que têm como objetivo transmissão e construção da psicanálise, o documentário conta com uma Estudos de Psicanálise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157–164 | Dezembro/2011
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Abstract
IDE, D. S. Cinema, psicanálise; espectador, analista: cam- is paper aims to discuss and articulate the po, contracampo. Ide, São Paulo, n.47, p.105-109, 2008.
relationship between cinema and psychoanaly- LEITE, S. C. Delírio: contorno do real. Psyche, São sis. To achieve this goal, it was analyzed the do- Paulo, n.17, p.157-67, jan-jun./2006.
cumentary Estamira, of Marcos Prado, 2006. Th e fi lm tells the story of a woman suff ering MILLER, J.A. Le salut par les déchets. In: Mental: Clinique from mental disorders who had worked for ye- et pragmatique de la désinsertion en psychanalyse, n.24. Clamecy, avril 2010. Trad. Helenice Saldanha de Castro.
ars at the sanitary landfi ll (a dump) in the city of Rio de Janeiro. Cinema as an expression of PENAFRIA, M. O fi lme documentário – história, iden- art relates to various forms of psychoanalysis, tidade, tecnologia. Lisboa: Cosmos, 1999. they also deals with the subjectivity of those involved in fi lm production. Th RINALDI, D. O traço como marca do sujeito. Estudos de Psicanálise, Salvador, n.31, p.59-63, out./2008.
pite not having a prior intention, holds a place of psychoanalytic object and listens carefully, SOUSA, E L A. Função: Estamira. Estudos de Psicaná- which resembles the function of an analyst. lise, Salvador, n.30, p.51-56, ago./2007.
Estamira passes her narrative of true that is outstanding, but in the same time confuses VENTURA, L S L. Estamira em três miradas. 2008. 191 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica e and impacts. In psychosis, the case of Estami- Cultura) Universidade de Brasília. Brasília, 2008.
ra, the delusions is an answer for traumatic events that could not be assimilated, they are responses to circumstances of great suff ering. e character elucidates the mechanism of de- lusion, showing that the only possible response S OB R E O S AU TOR E S
to the violence she experienced was the delu-sions and hallucinations. iago Robles Juhas
Psicólogo Clínico e Psicanalista em Formação. Espe-cialista em Psicologia Hospitalar, Curso Avançado de Keywords: Psychoanalysis, Cinema, Psycho-
Formação continuada em Psicologia Hospitalar: Saú- de, Subjetividade e Instituição pelo Centro de Estudos em Psicologia da Saúde (CEPSIC) Divisão de Psicolo-gia (DIP) do Instituto Central do Hospital das Clíni-cas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Referências
Niraldo de Oliveira Santos
FERNANDES, A L. Cinema e psicanálise. Estud. Psi- Psicanalista. Membro da Comissão de Ensino da Clí- canal. Belo Horizonte, n.28, p.69-74, set./2005.
nica Lacaniana de Atendimento e Pesquisas em Psica-nálise (CLIPP/SP). Doutorando em Ciências pelo De- FIGUEIREDO, A C. A construção do caso clínico: partamento de Neurologia da Faculdade de Medicina uma contribuição da psicanálise à psicopatologia e à da USP. Diretor Técnico de Saúde do IC/HCFMUSP saúde mental. Rev Latinoam Psicopatol Fundam. São Paulo, n.7, p.175-186, mar./2004.
Endereço para correspondência:
Rua Artur Pinto da Rocha, 53 – Jaguaré
FREUD, S. O estranho [1919]. In: FREUD, S. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v.XVII, FROEMMING, L. S. Sonhos e Lembranças no Cinema e na Psicanálise. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, Porto Alegre, n.127, p.07-11, jan./2004.
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Source: http://www.cbp-rj.org.br/psicanaliseestamira.pdf

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Finally -- FDA Admits That ALL Anti- Inflammatories May Kill You Posted by January 05 2005 | 9,360 views It has been discovered that nonsteroidal anti-inflammatory drugs, or NSAIDS, such as Cox-2 inhibitors Vioxx, Bextra and Celebrex, lead to an increased risk of cardiovascular problems. However, it turns out that these prescription drugs are not the only painkillers that should be av

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Publikationliste 1. Körner, Th .: Methodische Untersuchungen an Ito-Zellen der Leber zur Darstellung an Routinebiopsiematerial. Med. Diss. Univ. Halle 1985 . 2. Körner Th., F.-W. Rath: Morphologie und Funktion der Ito-Zellen der Leber, Z. Ges. Inn. Med. 42 (1987) 349-354. 3. Körner Th., F.-W. Rath, R. Nilius: Enzyme histochemical investigations of Ito cells in human live

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