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Auto-relato
Paulo B. Linhares (nome fictício) Em 1962, estudava interno em um seminário e tinha passado para o 1º ano do curso clássico (1º ano do 2º grau, hoje) e podiafreqüentar uma sala onde tínhamos permissão de fumar, ler jor- nais e algumas outras regalias. Por isso comprei três maços de ci-garros e quando ia fumar o terceiro cigarro, veio um pensamentoa minha mente como uma voz, bem no fundo do meu ser e bem Resumo
nítida mesmo, e dizia-me o seguinte: “O seu pai trabalha na roça eaté sob um sol quente para pagar os seus estudos e você ainda vaiqueimar o dinheiro dele”.
Relato de caso pelo próprio portador de transtorno mental. Trata- Essa voz, que falou no fundo da minha mente e que sabia se de paciente do sexo masculino, ex-seminarista e de nível escolar tudo sobre mim, ajudou-me a não adquirir o vício do cigarro, mas universitário. Apresentou sintomatologia psicótica repleta de revela- não me obrigou a nada. Tomei livremente a decisão de não fumar, ções mediúnicas, chegando a ser aposentado por invalidez. Relata pois julguei que realmente não estava agindo corretamente com em detalhes seus primeiros sintomas e situações deles decorrentes, relação a gastar o dinheiro do meu pai. Resultado: não fumei o assim como sua via crucis por atendimentos psiquiátricos. Posterior- terceiro cigarro e doei para os colegas todos os cigarros já com- mente cancelou sua aposentadoria e vem trabalhando e vivendo normalmente. Não considera sua sintomatologia fruto de doença.
Cada pessoa tem a sua história, tem a sua hora certa e a hora certa só o Pai sabe (Mt 24,36). Nos dias 7 a 10 de janeiro de 1980 Palavras-chave: Transtorno Psicótico; Esquizofrenia Paranóide;
vivi momentos interessantes e fantásticos, pois vinha a minha mente revelações para mim sobre a minha pessoa e minha vida.
Enquanto não escrevia a idéia num bloco de papel, não conseguia A finalidade desse imenso trabalho é contar-lhe o que aconte- acalmar e trabalhar. Era o início das minhas experiências místicas ceu comigo e as minhas experiências com relação a “mediunida- ou mediúnicas, assunto este sobre o qual nada conhecia. Foi tam- de”. Mediunidade é uma conquista nossa e é o dom de servirmos bém o início do meu autoconhecimento como um “ser cósmico” de intermediários entre os dois planos da criação divina: o plano ou um “Eu Sou”. Foi o meu nascimento do alto (Jo 3,7).
visível, o nosso, no qual vivemos hoje, com o plano invisível, que Tinha aprendido no seminário que espiritismo era algo con- também será nosso no futuro, mas com o qual já sintonizamos trário ao BEM. Mas em 10/01/1980 veio a público a minha me- hoje. Aquele que estuda e compreende a profundidade dessa sin- diunidade e, após dar muitos escândalos no meu trabalho e em tonização irá entender também o que é o “inconsciente”.
outros lugares, não dormi nada na noite de 10 para 11/01/1980.
A mediunidade, que é mesmo “profetismo bíblico”, é, em ge- Entre os escândalos que dei, cito alguns.
ral, considerada como uma doença para a psiquiatria, principal- Após escrever sobre a última revelação, que foi sobre a reen- mente no início do afloramento dela e também a psicologia a con- carnação com base na Bíblia, escrevi a seguinte frase: “Vai e fala, senão você morre!”. Saí como um “louco” da minha sala e fui fa- Nós fomos criados simples e ignorantes, mas perfeitos, pois lando para a secretária: “MF, a Boa Nova chegou”. Como a minha tudo o que Deus-Pai-Mãe criou é perfeito, e por nossos esforços voz estava alterada, a secretária assustou e teve medo de mim.
vamos evoluindo e nos tornando “sábios e santos”. Essa conquis- Após um rápido diálogo comigo, ela desceu as escadas e falou ta da sabedoria é executada através das vidas sucessivas ou das com os outros colegas de serviço: “O PBL ficou doido!”. Assustan- encarnações em corpos de carne. Nós, atualmente, somos um so- do assim a todos, mas não dei tempo de ninguém pensar e racio- matório de muitos “eus”, pois tudo o que fomos e aprendemos cinar em nada, pois desci imediatamente as escadas, tremendo em nossas vidas passadas faz parte do nosso inconsciente indivi- como uma vara verde. Quando fui visto pelos outros colegas, to- dual. Quando o nosso “inconsciente” vem a tona, temos que se- dos espantaram e virou uma confusão tremenda. Pedi a um cor- parar e entender o que é do “inconsciente individual” e o que é retor de valores para me levar ao Provincialado dos Franciscanos do “inconsciente coletivo”. Essa separação e esse entendimento em Carlos Prates, pois queria falar com os freis, já que pensava são frutos de muito estudo e é o encontro com a verdade, que li- que iria morrer imediatamente e tinha que passar para a frente a notícia da “Boa Nova”. Tentaram me convencer a não ir, mas não * Professor Associado Doutor do Departamento de Psiquiatria da Endereço para correspondência:
Faculdade de Medicina da USP; Coordenador da Residência em Instituto de Psiquiatria- HC-FMUSP Psiquiatria do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP; Rua Ovídio Pires de Campos s/n - sala 4039 Coordenador do Projesq- Projeto Esquizofrenia do Ipq- FMUSP 05403-010 - São Paulo- SPE-mail: helkis@usp.br Casos Clin Psiquiat 1999; 1(1):3-11 3 aceitava mesmo. Tentaram me dar água com açúcar, o que rejei- bem. Então vamos embora deixando esse negócio para lá” (isso o tei até com indelicadeza, dizendo: “Isso não é para mim, é para os assessor comentou comigo depois). Chegando na casa onde esta- va a EML, fui logo dizendo: “Agora não haverá mais pobre na ter- Tentei conversar sobre “Deus” e sobre a “Bíblia”, mas desses ra. A riqueza será dividida e todos terão meios para terem uma vida assuntos ninguém sabia nada. Falei em voz alta para todos ouvi- digna dos filhos e filhas de Deus”. Sei que ia assustando cada vez rem: “Essa vai ser uma grande empresa, pois é a primeira vez que mais as pessoas. Era como se eu fosse um teleguiado, pois sabia o isso ocorre dentro de uma empresa”. Como vi e entendi que nin- que fazia, mas não podia parar de agir e fazer escândalos.
guém compreendia nada, então tentei fazer um milagre para pro- No dia 11/01/1980 iniciou a minha luta contra os psiquiatras, var o que sentia e falava. Falei assim: “Vocês não acreditam no que pois estive no consultório de um deles, que deu o seguinte diag- estou falando? Então para provar tudo, vou fazer um milagre aqui nóstico para mim: “Cansaço e esgotamento mental = estafa”. Re- agora!”. Imediatamente peguei uma tabuleta com o nome de um ceitou-me um descanso de 15 dias na Clínica Pinel (Pinel é uma corretor de valores e disse, em alto e bom som, para todos ouvi- clínica de “doentes mentais”, que fica na Pampulha em Belo Ho- rem: “Vou fazer isso aqui virar um pássaro!”. Joguei-a para cima e rizonte). Ele mesmo assinou a guia ou o pedido de internação. Fa- fiquei esperando a transformação, mas ela caiu no chão conforme lei para o médico assim, após ter recebido o pedido para a inter- a lei da gravidade, apenas descolando o nome do corretor de va- nação: “Vamos para lá, doutor, que lá é muito bom mesmo (eu re- lores da madeira. Aí, já com um pouco de tranqüilidade, disse: feria ao Reino de Deus ou ao céu)”. Este psiquiatra disse para a “Graças a Deus! Agora sei que não vou morrer. Tenho o tempo todo EML que eu estava muito perigoso. É interessante observar que para conversarmos, se quiserem podemos ir para a sala de reunião”.
eu mesmo dirigia o carro em todos esses trajetos.
Foi um alívio geral: como jogar água num fogo de palha.
Às 16:00 horas fui conversar com o frei TAZ, que foi meu pro- Fomos para a sala de reunião, umas oito pessoas. Ali ficamos fessor e conselheiro espiritual no Seminário. Ele falou-me assim: conversando até às 16:00 horas, quando senti uma ânsia de vômi- “Você precisa é de psiquiatra e não de padre”.
tos. Fui ao banheiro, mas não cheguei a vomitar e voltei para a sala Foi uma grande decepção para mim e ainda é. Quando saí da de reunião. Com relação as outras pessoas, apenas duas ficaram o sala com o frei TAZ, o meu irmão padre, o frei DBL, estava con- tempo todo, as outras foram fazendo rodízio. Toda hora que che- versando com a EML e falou-me que também queria conversar gava um novo colega na sala, abraçava-o com muita emoção e, em comigo. Voltei para a sala com ele. Foi logo perguntando-me o alguns casos, até lágrimas saíam dos meus olhos. Sentia-me com que estava acontecendo e, com muita coragem e confiança, expli- um conhecimento imenso e com poderes totais. Era como se tudo quei: “Frei DBL, é bom demais. Não existe mais ódio em mim. dependesse de mim e me sentia o dono da situação. Por isso falei, Ódio é apenas uma palavra histórica. Estou pleno de amor e enten- mais ou menos, assim: “Não posso mais trabalhar com planejamen- dendo tudo. Só posso falar sobre o que já escrevi”.
to, pois agora sei tudo e até o futuro”. Ali pelas 16:30 horas, chega- Senti que não fui compreendido e ele me disse que iria dor- ram na empresa onde trabalhava o frei TAZ e um outro frei: foi mir em minha casa. Não concordei com ele, dizendo assim: “Hoje um alívio geral. Quando ficamos os três sozinhos dentro de uma não quero que você vá dormir lá”. Concordou comigo, mas quan- sala, fui logo dizendo: “Frei, encontrei o ‘Reino de Deus’!”. Vi e do saímos da sala o frei TAZ disse: “Frei DBL, você hoje vai dor- senti o espanto deles. O frei TAZ apenas perguntou, demonstran-do muita apreensão e um grande susto: “O que?!”. Repeti o co- mir na casa do seu irmão, não vai?”. De imediato, respondi: “Hoje mentário. Ele falou-me que não tinha tempo de conversar comigo não! Já combinei isso com o DBL”. Tudo o que falava assustava aos naquela hora. Saímos da sala e do lado de fora haviam muitos co- legas querendo entender melhor o que acontecia. Quando o frei - “O que é isso, PBL! Ele é seu irmão”.
TAZ perguntou-me em que hora poderia ir ao Provinciliado Fran- - “Bom, se essa é a sua vontade, então concordo”.
ciscano no dia seguinte para conversar com ele, respondi de pron- Eu e ela voltamos para a nossa casa. Ali pelas 19:00 horas, to: “Frei, para falar do ‘Reino de Deus’ qualquer hora é hora. Até a chegou em casa um outro dos meus irmãos, o JBL, e eu não que- meia-noite, se o senhor marcar, estarei lá”.
ria que ele dormisse em meu lar. Tentei de todas as maneiras man- Ficou marcado que estaria lá às 16:00 horas do dia dá-lo para um hotel. Isso escandalizou muito os meus familiares.
11/01/1980. As minhas respostas e observações assustavam cada Houve acontecimentos, nesse e noutros momentos, que fica- vez mais todo mundo. Às 18:00 horas, um dos diretores da em- ram completamente apagados da minha memória. É como se não presa me falou assim: “PBL, não foi possível ouvi-lo durante o tra- balho e quero ouvi-lo um pouco agora. Você, então, aceita que eu o Quando o frei DBL chegou em minha casa, ali pelas 21:00 ho- leve à sua casa e assim poderei ouvi-lo melhor. O assessor leva o seu ras, levou-me para o quarto para conversar. Fui logo dizendo para carro”. Concordei imediatamente e fomos. Ninguém queria que ele: “Frei, é revelação atrás de revelação. É muita coisa boa mesmo. eu dirigisse o meu carro, mas nada desconfiei. Chegando em meu Não posso mudar nada de momento, nem sei se posso acabar de lar, a minha esposa não estava e fui logo mostrando a Bíblia para construir a minha casa, na rua Ramos de Freitas. Sobre isso vou eles, comentando o trecho sobre o divórcio e casamento (vide Mateus 19,1-12). Após um rápido diálogo, pedi licença aos dois Não me lembro como fui deitar, mas acordei de noite e saí do amigos, pois tinha que ir buscar a EML, minha primeira esposa.
quarto gritando: “A última revelação: a minha mãe está aqui!”.
Eles não queriam que eu dirigisse, mas nada puderam fazer e ape- Coloquei todos em pavorosa confusão. Fui ajoelhar ao lado nas me seguiram por alguns quarteirões, depois comentaram o se- da cama duma senhora, que estava dormindo também, naquela guinte: “Nós não estamos entendendo nada. O PBL está dirigindo noite, no meu lar. Dizia para essa senhora que ela era a minha Casos Clin Psiquiat 1999; 1(1):3-11 mãe. Era na casa dessa senhora que a EML estava no dia anterior Esta resposta aumentou a minha dúvida e comecei a descon- No dia 12/01/1980, um sábado, fui levado de ambulância à fiar que estava sendo ludibriado e enganado.
clínica Pinel e lá cheguei como um louco para “quase” todos. Fi- - “Então traz um deles aqui”. Voltei a pedir, quase suplicando.
quei completamente inconsciente desde que a ambulância parou, - “Não pode”. Voltou a responder a psiquiatra. Nesta altura até que fui colocado entre os “enfermos” internados na Pinel.
conclui que estava sendo realmente ludibriado, enganado e não Foi uma total decepção. Como não vi como lá entrei, primei- acreditei em nada mais. Logo vi três homens (enfermeiros) prepa- ro tentei reconhecer o local, mas não foi possível. Depois falei em voz alta, quase gritando, palavras sobre o sítio onde passei a - “O que eles estão fazendo?” minha infância, pois o meu objetivo era encontrar com os meus - “Preparando remédio para você”. Respondeu a psiquiatra.
parentes, que tinham desaparecido: “Agropel!” (nome de fanta- - “Só tomo remédio se eu ver os meus parentes”. Respondi, pois sia de empresa agropecuária da família). Quem compreendesse as palavras ditas por mim iria me compreender e me levar aos Quando os três enfermeiros tentaram aproximar de mim, le- vantei e encostei na parede, para me defender do ataque dos três.
Tudo era desconhecido e uma grande incógnita para mim. Aí Eles não se aproximaram mais e após terem voltado para o fundo pensei que iria enfrentar o “nada absoluto” e me preparei para o da sala a doutora me convidou novamente para sentar na cadeira, encontro, ajoelhando e colocando a cabeça no chão entre as mi- o que fiz. Fiquei de espreita com relação aos três homens. Falei nhas mãos. Esperei um pouco e nada aconteceu. Não houve o en- para ela que parecia com a minha filha CL e conversamos mais um pouco. Após três tentativas, dei uma bobeada e os três me Levantei-me e comecei a perguntar a “torto e a direito” como agarraram a força e no braço mesmo. Um agarrou-me pelos pés, tinha chegado e queria saber que lugar era aquele. Ninguém teve outro pela barriga e o terceiro estrangulou-me pelo pescoço, dan- a caridade de me responder. Como não era entendido e não en- do-me uma gravata por trás, segurando o meu braço esquerdo e tendia ninguém, comecei a falar sobre “DEUS e o reino de forçando-o para cima nas minhas costas. Comecei a me defender, Deus”: esta era e é a minha loucura, que é viver e falar do infini- mas mesmo assim pensei racionalmente: “Bom, eles são três e eu to amor de Deus. Nesta altura vários enfermos se aproximaram um só, por mais que lute irão me vencer de todo jeito, então a úni- de mim para me ouvir. Senti que ninguém estava entendendo ca saída é ficar passivo”. Agi, imediatamente, como pensei. Mas nada. Tentei dialogar com o grupo e não houve jeito. Quando fiz um dos “homens-fera” me deu uma gravata tão apertada e forte uma pergunta para conseguir parâmetros de comparação com o que me enforcava e quando senti que estava morrendo por enfor- Reino de Deus, que foi assim: “O que é a melhor coisa da vida?” camento, levei a mão esquerda, que não estava mais presa, à mão Um enfermo, que estava sentado num canto e bem fora do gru- do “estrangulador” e puxei um pouco o braço dele e assim pude po, respondeu a minha pergunta em forma de baixaria. Aí falei respirar bem aliviado. Logo que fui colocado no chão, disse para para ele assim: “Não é isso não, irmão!” Recebi dele a seguinte res- os três homens e a psiquiatra: “Vocês fizeram uma covardia comi- posta e ainda girando o dedo indicador da mão direita em torno go e não podiam ter agido assim”.
do ouvido: “Você endoidou de vez, moço!” Mas esse diálogo fez Aí a psiquiatra deu-me permissão para ir aonde estavam os com que o “inconsciente coletivo dele” entrasse em sintonia com meus parentes: a EML, o frei DBL e o JBL. Mas nesta altura mi- o meu “inconsciente coletivo” e passei a pensar coisas estranhas nhas pernas já não obedeciam a nenhum comando de minha ao meu hábito com relação a sexo.
mente. Então a doutora pegou num dos meus braços, um dos en- Como não houve diálogo com os novos amigos, cheguei a fermeiros pegou no outro e conduziram-me até onde estavam a pensar que tinha feito uma viagem em um disco voador e estava minha primeira esposa e os dois irmãos. Quando vi os três apa- em outro mundo. Por isso comecei a me preocupar como volta- guei completamente e só acordei no quarto da minha casa (sabia ria para a terra se realmente estivesse em outro planeta.
que tinha falado algo com eles e não recordava nada).
Depois de cansar de falar, entrei por um corredor e não fui se- Os acontecimentos na Clínica Pinel poderiam ter sido com- guido por ninguém (devo ter entrado em área proibida). Andei pletamente diferentes se o meu desejo de ver os meus parentes um pouco e quando passava em frente a uma porta, que tinha a fosse aceito, pois o que queria era realmente saber onde estava.
parte de cima aberta, uma moça, que era uma recém-formada em Como só recebi respostas negativas, não acreditei em nada que psiquiatria e que dava plantão lá, chamou-me pelo meu nome e me foi dito antes e depois. Tinha sentimentos de dono da situa- logo fui falando, bem aliviado: “A você estou compreendendo, mas ção, que tudo girava em torno de mim, que os meus desejos ti- aí fora não compreendi ninguém”.
nham que ser realizados e compreendidos. Por causa dos “nãos” Ela chamou-me para conversar, convidando-me para entrar e recebidos como respostas senti-me como uma “fera enjaulada e sentar numa cadeira em frente à mesa dela. Logo perguntei a ela: ferida com vara curta”. Estava sozinho, tinha que sair daquele la- birinto e só podia contar comigo mesmo.
- “Você está na Pampulha em Belo Horizonte”.
Logo que reconheci o meu quarto, fiquei tranqüilo e calmo, aí Ouvindo essa resposta senti um grande alívio, mas queria con- ouvi uma voz falando-me assim: “Olha, tem padre no meio, que não está entendendo nada. Então faz um escândalo aqui agora, diz - “Onde estão os meus parentes?” que você pecou contra Deus e quer confessar”. Acabei de ouvir o - “Estão lá fora, à sua espera”. Respondeu ela.
pedido e agi imediatamente. Resultado: tomei mais remédio e - “Leve-me lá”. Pedi em seguida, pois estava ainda em dúvida.
Casos Clin Psiquiat 1999; 1(1):3-11 5 Daí para frente a minha via crucis aos consultórios dos psi- No final de março de 80 voltei a sintonizar com um amigo de- quiatras e psicólogos foi intensa, até o dia 10/02/1986, quando sencarnado e perdi novamente o sono durante a noite. Esse ami- consegui o cancelamento da minha aposentadoria por invalidez, go desencarnado, um espírito, é um dos meus grandes protetores ou auxiliares hoje e o nome dele é padre Luís, que em vida foi o Fora colocado de férias pela empresa onde trabalhava, uma fi- nanceira e, como fiquei muito bom, voltei ao trabalho no térmi- Como não dormia à noite, a EML telefonou para o Dr. XLV, no das férias, mas entrei de licença para assuntos particulares do que orientou-a para dar-me uma grande dose de “haldol”, que ela meu cargo de professor na Faculdade de Ciências Econômicas da mesma julgou ser uma dose cavalar e por isso não me deu, voltan- do a ligar para o doutor, que também achou demasiada a dose de Logo que voltei ao trabalho completamente bom muita gente “haldol” e a reduziu bem mesmo. No domingo cedo a EML to- ficou espantada e queria saber o que tinha se passado comigo, mou providências. Levaram, lá em casa, o Dr. CMX, um psiquia- pois no dia 10/01/80, de 14:15 até às 18:00 horas, dei muito es- tra que me deu quatro “haldol” de 5 mg e quatro “akinetons”, cândalo no meu trabalho, falando muito e até milagre tentei fazer pois, enquanto não apaguei na frente dele, ele não parou de me para provar o que dizia sobre Igreja, Bíblia, Religião e Deus. Por dar remédios. Logo que meu primo HLP e a esposa chegaram em causa da reação dos amigos, procurei um psiquiatra da Unimed.
minha casa e ouvi falar que estavam com um psiquiatra, bati a por- Fiz isso porque os meus ex-professores e ex-orientadores, os freis ta na cara deles e ainda falei: “Psiquiatra não entra em minha casa”.
franciscanos, principalmente o frei TAZ, não me compreenderam Eles espantaram com a minha reação e disseram: “O que é e nem puderam me auxiliar ou orientar em nada.
isto, PBL. É apenas um amigo”.
O psiquiatra, que procurei no final de fevereiro de 1980, foi o Então eu mesmo abri a porta e respondi com muito mais cal- Dr. XLV. Logo que lhe expus o quadro, deu-me o seguinte diag- ma: “Amigo! Pode entrar!”.
nóstico: “Eu estava doente, muito perigoso, precisava tomar remé- Mas quem lá entrou não foi um amigo, mas um digno repre- dios e fazer análise”. Não aceitei sua orientação e ainda disse a ele: sentante da psiquiatria materialista e influenciado por alguns es- “Como posso estar doente, se estou trabalhando bem, comendo píritos, que não queriam o meu “desenvolvimento mediúnico, omeu autoconhecimento e o meu equilíbrio, após o meu nascimen- bem, dormindo bem e vivendo imensamente bem com minha famí- lia e com todos. Até parece que fiquei livre duma cadeia invisível e Hoje sou um médium desenvolvido e católico, que desmasca- ra qualquer espírito com pseudo-iluminação ou falsa-evolução.
Por causa desta última idéia minha é que ele continuou afir- Como é o caso de muitos monstros sagrados, que dão muitas mando que eu estava doente, desequilibrado e necessitava de re- mensagens hoje em dia, que passaram a me obsediar e por isso médios e análise. Ele só tentou me convencer que estava doente, tive que afastar de muitos “centros espíritas”. Sendo um bom mé- o diálogo foi muito longo e maçante para mim. Esse estudioso das dium torna-se fácil para os espíritos darem mensagens lindas. O mentes também não entendeu nada da minha mente.
principal responsável pela “obra” é o médium e não os espíritos, Como ele não me convenceu, disse-me assim: “Sou um profis- pois quanto mais evoluído é um “espírito”, mais ele respeita a li- sional e como você não aceita fazer tratamento, preciso conversar berdade plena do “médium ou do profeta”, que é quem corre to- com um parente seu para expor o meu diagnóstico”.
dos os riscos e leva todas as conseqüências negativas ou positivas.
Numa tarde de março de 1980, o Dr. XLV me telefonou con- A dose de “haldol” (4) e “akineton” (4) do Dr. CMX me co- vidando para ir ao consultório dele em companhia do frei DBL.
locou grogue por vários dias, pois não dou notícias certas de nada Após muita conversa e já cansado de defender tanto a minha nor- que aconteceu depois. Estive no consultório do Dr. XLV, levado malidade como a minha saúde, então apelei para tirar do psiquia- pelo meu primo HLP e esposa, juntamente com minha primeira tra o apoio do meu irmão, dizendo: “Só aceito que estou doente se esposa, que desencarnou em 28/01/1984. Lembro-me vagamente tudo o que me ensinaram sobre Deus e religião for mentira. Se tudo dos diálogos naquelas consultas, nem mesmo sei como eu conse- o que me ensinaram sobre a bondade de Deus, o Evangelho de Je- sus e a Igreja for mentira, então aceito que estou doente e preciso Falhei vários dias no trabalho, mas não fiquei sabendo quan- tratar, pois fui enganado e ludibriado durante toda a minha vida; já tos. Depois comecei a trabalhar só na parte da tarde.
que vocês julgam que estou doente”.
Comecei a fazer tratamento com o Dr. XLV, que me receitou Enquanto falava, lágrimas rolaram dos meus olhos e esta mi- litium e neozine. Só suportei este tratamento desumano por uns nha observação derrotou o meu irmão DBL, que apoiava o psi- 15 dias, pois o litium foi terrível para mim. Basta dizer que quan- quiatra e passou para o meu lado. Após sair do consultório, levei do ia ler algo as letras “criavam asas” e rapidamente transforma- o frei DBL ao Provincialado dos Franciscanos.
vam-se em um borrão preto em toda a página. Novamente, esse Disse a ele que não podia ter mais filhos. Essa foi a razão por- estudioso das mentes não me entendeu. Fiquei desesperado e que na noite de 11 para 12 de janeiro de 1980 não queria que nin- com auxílio de um amigo procurei outro psiquiatra no final de guém dormisse em meu lar. Pois um “espírito muito forte e pode- roso” iria reencarnar como meu filho, esperava apenas o meu O Dr. LXVI me fez exames de reações psicomotoras e me jul- “nascimento do alto” (Jo 3,3 ou 7). Como não foi possível, então gou até com boas reações físicas. Disse-me que não precisava da- passei a participar de um plano muito evoluído e tinha que me queles remédios do Dr. XLV, mas de outros mais fracos. Nesta al- preparar muito bem para cumprir a minha missão nesta encarna- tura comecei a analisar que cada psiquiatra agia de uma forma e ção. Agia sobre a influência do “inconsciente coletivo”.
receitava remédios diferentes, então eles realmente não sabiam o Casos Clin Psiquiat 1999; 1(1):3-11 que se passava comigo e assim deveria ser com todos. Passei a Em março/81, através de uma velha e muito amiga, a mesma confiar mais ainda no meu conhecimento bíblico e na Bíblia Sa- que chamei de mãe na noite de 11 para 12 de janeiro de 1980, fo- grada, pois nela existem passagens onde se ouvem vozes e são vis- mos avisados que, no bairro Jardim América, um médium aten- dia e curava muitos doentes, inclusive de câncer, e como a EML O Dr. LXVI receitou-me haldol, akineton e neozine. Em maio tinha câncer, o que ficamos sabendo em novembro de 1980, pe- de 1980, falei para o Dr. LXVI que não conseguia trabalhar to- diu-me para levá-la lá. Foi assim que tomei conhecimento prático mando aquelas drogas, pois não conseguia raciocinar e nem pen- da vida evangélica e caridosa dos espíritas. O atendimento era fei- sar. Se fosse necessário tomá-las, então era para ele conseguir uma to aos domingos à tarde e de 14 em 14 dias. Na primeira vez não licença no INSS para mim. Ele não quis, dizendo-me que não de- aceitei fazer uma consulta para mim, mas na segunda vez consul- via ou podia (?) me arrumar licença e que então era para que eu tei também. Logo que entrei na sala do médium e expus o que ficasse sem remédios, mas logo que a “crise” (hoje a chamo de fe- acontecia comigo, o médium mediunizado respondeu-me: “Você nômeno mediúnico ou místico) iniciasse era para que eu tomasse não tem doença nenhuma, o problema é que os amigos invisíveis es- uma dose de “haldol”, pois não iria agüentar o desenrolar da cri- tão querendo manter contato. Você conhece alguma coisa?” se. Logo que terminou o efeito do remédio e comecei a sentir a Perante minha ignorância completa do assunto aconselhou- presença dos “invisíveis ou espíritos”, tive um acesso muito forte me a ler as obras do André Luiz, psicografadas por Chico Xavier.
de vômitos, mas nada vomitei e não aceitei tomar remédios.
Também foi marcada uma reunião de captação para mim, após 28 Em junho de 1980, voltei ao consultório do Dr. LXVI, que dias. Religiosamente compareci no dia marcado com antecedên- tentou forçar-me a aceitar a tomar remédios e, perante a minha cia e nada foi feito. Quando cobrei a razão de não ter sido aten- negativa, disse-me mais ou menos assim: “Se você fosse um auxi- dido, indicaram-me um outro médium para conversar. Este era liar de pedreiro, mandava uma radiopatrulha prendê-lo e interná- um advogado, que recebia um caboclo e deu-me a seguinte expli- lo no ‘Galba Veloso’ (outro hospital para doentes mentais) para cação, após um bom diálogo: “Nós não fizemos a reunião de cap- você tomar remédio”. O que respondi imediatamente: “A minha tação com você porque estamos com medo. Os que estão com você sorte é que não sou, não é doutor? Também tenho curso superior, são espíritos de extremos: são muito bons ou muito maus. Por isso posso lhe pagar esta consulta e também o senhor precisa dela para aconselho-o a ler as obras da codificação do espiritismo, escritas por É lógico que não gostou da minha resposta e disse para a Não é necessário dizer que as li e reli todas, ainda continuo EML que não iria tratar mais de mim porque eu era teimoso e ca- Uma conversa premonitória com colegas da empresa (sobre No último trimestre de 1980 freqüentei a clínica A. Santa do medida que evitaria sua falência, o que se concretizou posterior- frei NK e lá me orientaram a parar de tomar remédio. Nessa clí- mente), também em início de 81, causou-me muita emoção e, nica tomei soro, fiz sessões de regressão de vida até ao útero e de logo que cheguei em casa, senti uma forte manifestação mediúni- relaxamento. Numa dessas sessões vi mentalmente pela primeira ca. Quando cheguei na janela da sala vi um carro parado em fren- e única vez o “Velho Jó”, o espírito, que hoje é o meu mentor te, na rua Ramos de Freitas. Ouvi o passageiro falar com o moto- rista assim: “Toca, que nós não podemos entrar nessa casa, é luz de- Pelo meu conhecimento atual, sei que a pessoa que dirigia a mais”. O carro foi embora, como também o provável auxílio.
“sessão de relaxamento” não agiu corretamente. Ela mesma fez Em setembro de 1981 tirei férias e senti uma razoável melho- com que o “Velho Jó” saísse da minha tela mental, pois não o co- ra. Viajei sozinho para visitar o papai e outros familiares. Em Di- nhecia, mas como houve o aparecimento dele era necessário des- vinópolis, fiquei sabendo do lado espiritual de tudo aquilo que cobrir a causa ou razão daquela visão. A imagem do “Velho Jó” aconteceu comigo. Participei também de uma reunião mediúnica, na linha de umbanda, na casa do meu irmão, com um médium Levou um bom tempo para a limpeza química do meu físico.
que esteve em minha casa no final de março de 1980. Tive ótima No início de 1981, após o término dos efeitos dos remédios, vol- melhora durante as férias. Alguns dias depois fiquei sabendo que tei a sentir os efeitos da mediunidade. Tive que retornar ao Dr.
meus familiares davam-me remédio sem o meu conhecimento e, LXVI, pois o meu orientador da clínica A. Santa, o psicólogo ir- como viajei sozinho, esta atitude desleal não pôde continuar. Com mão MPN estava de férias e os meus familiares não aceitavam que isso, o meu físico começou a ficar livre da contaminação e da pri- eu ficasse sem remédios. Nesta consulta com o Dr. LXVI conver- são química. Aqui estava a explicação da minha melhora.
samos sobre “ETs” e discos voadores: “OVNIS”. Ele fez-me mui- Procurei então o psiquiatra espírita e médium Dr. MMM.
tas perguntas, às quais ia respondendo. Disse-me também que o Pois raciocinei assim: “Já que estou pagando a um psiquiatra, é tratamento na clínica A. Santa era puro charlatanismo. Fiz o pa- melhor que vá a um psiquiatra espírita, pois assim posso apren- gamento à secretária, mas esqueci de assinar o cheque. O Dr.
der mais sobre mediunidade e espiritismo kardecista”. O Dr.
LXVI repetiu os mesmos remédios receitados em abril/1980. Na MMM me falou algo, que muito me decepcionou: “Como você consulta seguinte, após a orientação sobre os remédios, apresen- veio aqui, é porque a ‘espiritualidade’ julga que você precisa de re- tou-me o cheque sem assinatura e falou-me, mais ou menos assim: médios e por isso vou ter que receitar para você. Aqui sou psiquia- “Assine aqui para mim. Você estava tão ruim na vez passada que nem assinou o cheque”. Respondi imediatamente, sem pensar: Por orientação médica do Dr. MMM tomei “stelazine”, “to- “Pois é, doutor, e quem recebeu o cheque estava pior do que eu, pois franil”, “semap”, “haldol” e “akineton”. Aceitei ficar com o Dr.
recebeu um papel sem nenhum valor”.
MMM até julho de 1983, pois este psiquiatra também era mé- Casos Clin Psiquiat 1999; 1(1):3-11 7 dium e, para mim, um grande conhecedor do assunto e podia me apenas a EML entrou na sala, disse, dirigindo-se a ela: “O PBL pa- ajudar muito. Como me enganei. e muito mesmo.
rou de tomar semap, agora terá que tomar remédio mais forte: hal- Mostrei para o Dr. MMM os meus primeiros escritos psico- dol”. E virando-se para mim, perguntou-me: “Você toma?”.
grafados. Logo que os leu, disse-me: “Esse espírito é um engana- Raciocinei rápido, tomei a decisão de nunca mais voltar ali e dor e depois que ele conquistar a sua confiança irá pedir para você que não podia dizer ao doutor psiquiatra o que ele precisava ou- agir errado. Ele não sabe nada”.
vir, pois assim pareceria mesmo “louco” para minha primeira es- Com essa observação dele, notei claramente que também no posa. Minha primeira vontade era sair do consultório e ofender plano invisível existe muita discórdia, confusão, inveja e despeito.
ao Dr. MMM com palavras, chamando-o de incompetente e que Em fins de abril de 1982 o meu chefe no trabalho falou em nem de amigo poderia chamá-lo. Mas reprimi o primeiro ímpeto uma reunião que iria me despedir do serviço, pois não conseguia e respondi para ele de pronto: “Tomo sim, doutor, pois Jesus disse trabalhar e a empresa não era de assistência social. Conversei com que o que faz mal ao homem é o que sai da boca e não o que entra o chefe e pedi a ele uns dias de prazo, pois iria tentar uma licen- ça médica junto ao INSS, já que não conseguia mesmo cumprir as Ele olhou para mim com os olhos arregalados e depois fez minhas responsabilidades no trabalho, devido aos efeitos colate- uma receita, que nunca foi usada, pois quando estava na rua, fa- rais dos remédios. No dia 25/05/1982 entrei de licença no INSS.
lei: “Nunca mais voltarei aqui no consultório do Dr. MMM, pois Em maio/82 fiz uma “sessão de sacudimento” com um mé- perdi toda a confiança nele”.
dium, que trabalha com a linha de candomblé. O preto-velho Be- Quando comentei com outro psiquiatra os fenômenos acon- nedito (um espírito) me aconselhou a continuar freqüentando tecidos em agosto de 1982, dentro da Igreja de Santa Tereza, reuniões no Centro Oriente e como me orientou a reduzir as do- oportunidade em que fiquei sabendo de uma vida passada do ses dos remédios, tomei a decisão de parar de tomar stelazine e tofranil em junho de 1982. Pois vi e compreendi que também a “espiritualidade” não tinha a mesma orientação com relação aos - “Bom, doutor, isso é uma coisa muito íntima. Não dá para fi- remédios. Tenho também comigo uma receita mediúnica, do iní- car contando assim”. Tentei sair da armadilha, pois cai numa ara- cio de 1982, do espírito Joseph Gleber, por intermédio do mé- dium Dr. MMM, onde foi orientado para que eu continuasse to- - “Aqui é como um confessionário. O que você contar aqui, fica Logo que o efeito dos remédios terminou, voltei a sentir a li- Comentou o psiquiatra, fechando o cerco em cima de mim.
gação mental com a espiritualidade. Em agosto/82, dentro da Mesmo assim não contei o nome, mas disse apenas o grupo, ao Igreja de Santa Tereza, na hora da missa, aconteceu um belo e qual pertenci num longínquo passado. Imediatamente senti a pre- fantástico fenômeno mediúnico ou místico comigo e não existem sença de um amigo invisível, que fez efeitos físicos perto do meu palavras para descrever o que senti. Passei por experiências in- cotovelo direito, pois os meus cabelos num círculo com raio de 3 descritíveis. Vivi emoções tão intensas que escandalizariam qual- cm ficaram eriçados. Mostrando o braço para o psiquiatra, disse: quer profeta bíblico. Uma voz me contou uma vida passada do - “É isso que falo com o senhor, doutor, veja aqui no meu braço!” meu espírito no início da Era Cristã. Essa revelação ou autoco- - “O que é isso?” Perguntou espantado o Dr.
nhecimento me deu confiança plena e certeza que tinha uma mis- - “Isso aqui, é porque tem um amigo invisível aqui, que não vejo são importante a cumprir aqui na terra. Perdi completamente a e nem o senhor, mas para ele dizer que está aqui faz isso comigo. Ele vontade de morrer, passando a ter uma imensa vontade de viver.
quer saber quem fui há 2.000 anos atrás, pois disse para o senhor Em junho/83 estava tomando semap, receitado no início de apenas o grupo e ocultei o nome”. Falei apontando com o dedo 1983, um comprimido por semana, e novamente parei de tomar remédio “no peito”, contra a orientação do psiquiatra-médium.
- “Porque isso acontece com você e não comigo?” Perguntou o Em julho/83 voltei a sentir a presença dos invisíveis, uns eram amigos e bons, outros inimigos ou despeitados. Durante uma mis- - “O senhor, doutor, é que deveria me explicar e não eu. O se- sa, na Igreja de Santa Luzia na Cidade Nova, sintonizou comigo nhor é que é o psiquiatra”.
uma entidade com péssima vibração. Quando conversava com ela - “Você daria um analista muito bom mesmo”. Arrematou o a minha boca ficava toda torta e, após dois dias, a EML viu o fe- nômeno e tive que voltar ao consultório do Dr. MMM, pois meus - “Realmente, neste campo, quero ajudar sim, doutor. Mas tem familiares não aceitavam que eu ficasse sem remédios.
uma condição, pois vou ajudar de graça, já que para o meu sustento Primeiro falei em particular com o Dr. MMM e disse para ele vou usar do meu conhecimento de matemática”.
mais ou menos assim: “Doutor, o senhor também é médium, sabe - “Aí você tira o meu ganha-pão!” Disse-me ele.
muito bem que existem espíritos em todos os lugares e também que - “Isso já não é problema meu, mas seu. Se o senhor quer real- sentimos a presença deles onde quer que estivermos, por isso, para mente ajudar, então estuda muito mesmo, pois existe muita gente que eu consiga o meu equilíbrio, não posso tomar droga alguma. necessitada, que não vai aceitar de graça”.
Quero o seu auxílio para ajudar os meus familiares a me entende- Freqüentei também reuniões no Centro Espírita Irmão Ma- rem e a aceitarem que eu fique sem tomar remédios”.
teus, de março de 1984 a junho de 1988. Tive que parar porque Enquanto estava sozinho com o Dr. MMM ele nada falou co- o dirigente da reunião não me compreendeu e nem aceitou a paz, migo e confiei nele, mas ele me traiu. Para mim, ele agiu com mui- o amor e o sentimento de unificação do “Velho Jó”. O mesmo ta desonestidade, muita falsidade e até com antiética médica, pois aconteceu no Centro Espírita Bezerra de Menezes, em que estive Casos Clin Psiquiat 1999; 1(1):3-11 de 1996 a 1998, onde também não foram compreendidas as Relato de primos, filhos de pais consangüíneos, com história orientações de PAZ PLENA e liberdade total do “Velho Jó”.
Em maio de 1994 aconteceu um fato mundial: a morte do ído- Atualmente, relata que não mais se sente “teleguiado” e sem lo Airton Senna, que causou muita emoção no mundo inteiro e controle, pois entende os fenômenos que vivencia, discute e os principalmente no Brasil. Vivi um fenômeno paranormal muito explica, é mais consciente. “Desenvolvi uma visão diferente com intenso mesmo e com a participação de outros, mas todos pude- base na prática”, ou seja, com base nos fenômenos que lhe ocor- ram extravasar suas emoções, menos eu, pois fiquei como o úni- rem e que não dependem dele. Por exemplo, teria “interpreta- co culpado por tudo que aconteceu no meu trabalho. Disseram ções” adequadas para acontecimentos como a quebra de uma que tentei dar dois socos num colega, que tentei agarrar outra ponta de lápis, ou para a mudança repentina de sua letra enquan- pessoa pelos pés ao subir uma escada. Disseram ter visto isso, mas to escreve. Para suas interpretações e explicações, utiliza-se de es- foi um fenômeno paranormal por parte deles, pois nada daquilo tudos religiosos/mediunidade, metafísica, parapsicologia/para- tinha acontecido no plano físico, só tiveram ilusões. Ainda recebi normalidade, física, matemática e uma numerologia própria. Re- um castigo para ficar alguns dias em casa e meus familiares foram lata apresentar alterações motoras e dores, além de alucinaçõesauditivas e cenestésicas/táteis. As “vozes” agora seriam mais su- obrigados a me dar algumas doses de remédio sem o meu conhe- tis, “tenho uma defesa muito forte, entendo melhor”. Há muito cimento. Tudo isso por ordem de pessoas que não queriam a vi- não estaria apresentando alucinações visuais, mas ainda poderá tória plena do bem, nem a PLENA PAZ na terra e a divulgação “ver tudo,” pois “o futuro pertence a Deus”. Lembra que visões ou ouvir vozes são fenômenos freqüentemente descritos na Bí- Bom, o que quero mostrar com esse trabalho e essas revela- blia. Por vezes, escreve para autoridades eclesiásticas em busca de ções é que mediunidade nunca se trata com remédios, que só po- diálogo na compreensão de suas vivências.
dem ser usados como um paliativo por pouco tempo, mas princi-palmente com amor, compreensão, conhecimento, muita carida- Discussão do caso
de, muito estudo teórico e prático.
Que a luz, o amor, a sabedoria e a compreensão do mestre Je- Este é sem dúvida um caso extraordinário na medida em que sus possam envolver a todos os seres humanos na terra. Com esse se trata de um auto-relato de caso, algo muito raro em nossos sentimento geral torna-se possível a construção do “Reino de dias. A comparação com o célebre caso Schreber é inevitável, tal- Deus na terra”, como pedimos na oração do “Pai-Nosso”, ensina- vez a mais famosa e detalhada auto-descrição de um quadro deli- rante até hoje escrita.1 Daniel Paul Schreber era um juiz da cortede apelação da Saxônia que foi internado algumas vezes em hos- pitais psiquiátricos entre 1884 e 1902. Em 1900, começou a escre-ver suas “Memórias de um Doente dos Nervos”, terminadas em 1902 e publicadas no ano seguinte. As “Memórias” de Schreberforam objeto de análise de vários autores: Baumeyer, Niederland2 Idade: 54. Naturalidade: região das Vertentes, interior de Mi- e, sobretudo, Freud.3 Foi diagnosticado por seu médico Fleshig e nas Gerais. Residência: Belo Horizonte. Cor: branco. Estado ci- por Freud (que não o conheceu, somente analisou sua autobio- vil: casado, sendo que já foi viúvo. Profissão: ciências contábeis e grafia) como portador de dementia paranoides, antigo termo krae- administração de empresas. Nível de educação: superior. Reli- pelineano que corresponde ao que hoje denominamos esquizofre- gião: católica (seminarista por nove anos); hoje estuda outras re- nia paranóide. No entanto, o início tardio do quadro psicótico, a ligiões, conhece o espiritismo, mas não se considera espírita.
estrutura delirante complexa e o fato de não ter evoluído de for- Início do quadro mental em janeiro de 1980, com uma inter- ma deteriorante, são argumentos que permitem afirmar que o nação psiquiátrica de curta duração, conforme descrito no auto- quadro clínico de Schreber esteve mais próximo de uma parafre- relato. Possui documentos médicos com os seguintes diagnósti- nia, termo hoje englobado dentro dos transtornos delirantes. Narealidade Kraepelin considerava a esquizofrenia e a parafrenia cos: 296.3 (13/5/82) e 295.6 (16/5/82 e 24/11/82).
como processos que não produziam uma demência completa (de- Possui três filhos do primeiro casamento e dois do segundo.
menz em alemão) mas sim uma espécie de “enfraquecimento Principal entretenimento: estudar religião. Teria relaciona- A idade de início é ainda uma das variáveis mais estudadas na esquizofrenia. Já está bem estabelecido que seu pico de incidên- Trabalhou de 1969 a 1978 e de 1986 até hoje numa mesma fir- cia nos homens é de 15 a 25 anos e nas mulheres 25 a 35 anos.5 ma. Entre 1978 e 82 numa financeira, retirando-se com a licença Embora se saiba que a esquizofrenia pode ter seu início fora das médica. De 1972 a 80 foi professor auxiliar na Faculdade de faixas etárias antes mencionadas, no caso em questão, o paciente PBL apresentou as primeiras manifestações psicóticas aos 34 Sempre foi auto-suficiente financeiramente, mesmo quando anos, isto é, fora da faixa esperada de idade de início da esquizo- afastado pelo INSS (embora com mais dificuldades).
frenia. Por outro lado esquizofrenia não significa necessariamen-te evolução deteriorante e a história de PBL fornece-nos evidên- * Prof. Adjunto Doutor do Departmento de Psiquiatria e Neurologia da cias contrárias a esta hipótese: voltou a trabalhar em 1986, seis anos após sua internação psiquiátrica, manteve um segundo casa- Casos Clin Psiquiat 1999; 1(1):3-11 9 mento, amigos, algo difícil de ocorrer em pacientes deteriorados por Kraepelin puderam observar que os que apresentavam a cha- mada paranóia, um transtorno delirante puro sem alucinações, ti- Um início precoce é um fator de mal prognóstico em várias veram melhor prognóstico que os parafrênicos, que tendiam para doenças mentais. No caso da esquizofrenia a idade de início pre- uma evolução deteriorante em muitos dos casos.4 coce demonstrou ser um fator preditivo para o desenvolvimento A estrutura delirante de PBL, descrita através do seu relato, de resistência ao tratamento neuroléptico.6 No caso de PBL po- não parece sistematizada, mas isto pode estar limitado pelos do- der-se-ia contra-argumentar que se trata de uma “esquizofrenia tes literários do paciente, que variam da mesma forma que o das de bom prognóstico”, na medida em que o paciente apresenta al- pessoas sãs. A maioria de seus delírios são de caráter místico-reli- guns dos fatores preditivos associados a uma evolução mais favo- gioso, eivados por idéias de grandeza. Seu linguajar é facilmente rável (menos deteriorante): ser casado, ausência de história psi- encontrado em pessoas que professam a religião espírita e que quiátrica prévia, ausência de alterações prévias de personalidade, bom relacionamento social, antecedentes de bom desempenho Há, portanto, uma grande influência cultural no delírio deste escolar e no trabalho, idade de início tardio.5 paciente e aqui surge uma questão, se quisermos classificá-lo de O relato de PBL apresenta trechos que sugerem um quadro acordo com a nosologia ou a nosografia atuais: para CID-10, nos de excitação (p.ex. “Sentia-me com um poder imenso e com co- transtornos delirantes persistentes (F22) os delírios devem ser nhecimentos totais”; “Sei que ia assustando cada vez mais as pes- “claramente pessoais e não subculturais” (p. 96).9 Entendemos soas. Era como se fosse um teleguiado, pois sabia o que fazia, mas que o verdadeiro quadro delirante se caracteriza pela presença de não podia parar de agir e fazer escândalos”). Por outro lado, o pa- um construto pessoal tão idiossincrático que não permite ser ciente recebeu o diagnóstico de 296.3 (depressão). Estaríamos na compartilhado com os outros. Para se ter uma idéia de um delí- realidade diante de um transtorno bipolar com sintomas psicóti- rio cuja construção é pessoal citamos o que Schreber escreveu a cos? O pouco que sabemos de sua evolução não aponta para tal direção e, na descrição de sua situação atual, há a informação da “A capacidade de interferir deste modo sobre os nervos presença de um quadro delirante alucinatório persistente, sem re- de uma pessoa é, antes de mais nada, própria dos raios divinos.
missões, o que não seria esperado nos transtornos bipolares.
Só posso encontrar a explicação para isso no fato de que o profes- Penso que numa discussão de caso devemos adotar sempre a sor Fleschig de algum modo se permitiu fazer uso dos raios divi- estratégia do Advogado do Diabo: procurar refutar a hipótese do nos; mais tarde além do professor Fleschig, raios divinos também diagnóstico principal até o limite máximo, para que as evidências se puseram em contato com meus nervos. Assim, relativamente a seu favor tenham peso maior que o das evidências contrárias.
cedo, esta interferência teve lugar na forma de uma coação a pen- Assim temos evidências neste caso de que se trata de um transtor- no delirante, e não de uma esquizofrenia, com relativa conserva- O delírio de PBL está longe de ser algo tão elaborado, cons- ção da personalidade. No entanto, há algumas evidências de sin- truído à partir de uma teoria pessoal, como fizera Schreber. Por tomas maniformes e um diagnóstico anterior de depressão. O pa- outro lado surge também uma contradição se quisermos classifi- ciente poderia ter recebido tratamento correspondente (antide- car este paciente dentro dos critérios dos “transtornos delirantes” pressivos, estabilizadores do humor), mas só há a descrição de da DSM IV, pois nestes casos os delírios devem ser “não bizarros” uso de antipsicóticos (Haldol®, Neozine®, Semap®‚) que, diga-se como ocorre na esquizofrenia. A idéia de “bizarria” na DSM IV de passagem, quando interrompidos, levaram a um retorno da é derivada do conceito de plausibilidade: assim é considerado bi- sintomatologia (“ .em junho/83 parei de tomar remédio ‘no pei- zarro um delírio onde uma pessoa afirma que “.uma pessoa re- to’. em julho/83 voltei a sentir a presença dos invisíveis…”).
moveu meus órgão internos e colocou os órgãos de outra pessoa No caso dos transtornos delirantes a ocorrência concomitante sem deixar qualquer cicatriz” e como não bizarros aquelas situa- de sintomas do humor não é novidade. Por exemplo, comentando ções plausíveis de ocorrência na vida real, tais como “ser seguido, a história dos transtornos delirantes, Kendler chama atenção que envenenado, infectado, amado à distância, enganado pela esposa Esquirol denominava “monomanias” quadros delirantes associa- dos a humor elevado e aumento das capacidades física e mental.7 Por estes critérios os delírios de Schreber são francamente bi- Mesmo o caso Schreber já foi interpretado como um transtorno zarros e os de PBL nem tanto: um dos médiums que o atendeu do humor8 uma vez que o próprio Freud descreveu sintomas de- chegou a afirmar que ele não tinha doença alguma, fornecendo pressivos nas manifestações iniciais do caso.3 A própria CID-10 uma explicação apropriada dentro de uma certa cultura, compar- admite que nos transtornos delirantes persistentes “sintomas de- pressivos ou mesmo um episódio depressivo bem marcado (F32.)podem estar presentes de forma intermitente.” (p. 96).9 Summary
No entanto, uma questão maior na discussão deste caso: a es- trutura do delírio do paciente PBL. Como já fora observado por Presentation of a case by the own patient, a man that once was se- vários autores, apesar de comprometidos, os pacientes delirantes minarian and that has a high educational level. He presented psycho- apresentam-se relativamente preservados em outras áreas, o que tic symptomatology full of mediumistic revelations and was retired também se evidencia no paciente objeto de nossa discussão. Para for some years. He describes in details his first symptoms and its explicar tal fenômeno Esquirol cunhou o termo delírio parcial consequences, as well as his via crucis through psychiatric treatments.
para estes casos.7 Do ponto de vista da evolução, autores que ti- Today he works and lives normally. He does not consider his sympto- veram a oportunidade de dar seguimento aos pacientes descritos matology as originated from disease.
Casos Clin Psiquiat 1999; 1(1):3-11 Henna J. Esquizofrenia Resistente ao Tratamento Antipsicó- Key-words:
Psychotic Disorder; Paranoid Schizophrenia; tico [dissertação de mestrado - Departamento de Psiquiatria, Faculdade de Medicina]. São Paulo: Universidade de SãoPaulo, 1999.
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Source: http://www.abpbrasil.org.br/medicos/publicacoes/revista/arquivos/01Auto-Relato%20-%20Revelacoes.pdf

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